domingo, 27 de dezembro de 2009

Aspectos físicos e ergonômicos nos postos de trabalho

Por: Bráulio Wilker Silva

A ergonomia visa estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de conforto, segurança e desempenho eficiente.

As condições de trabalho incluem aspectos relacionados ao levantamento, transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às condições ambientais do posto de trabalho, e à própria organização do trabalho. Abordarei apenas alguns dos aspectos físicos ergonômicos mais importantes. São eles:

1. Iluminação: luminosidade adequada a cada tipo de atividade;
2. Ventilação: remoção de gases, fumaça e odores desagradáveis;
3. Temperatura: manutenção de níveis adequados de temperatura;
4. Ruídos: remoção de ruídos ou utilização de protetores auriculares;
5. Vibração: ondas que se propagam por movimentos de compressão e dilatação sucessivos;
6. Música;
7. Cor.


 ILUMINAÇÃO


Pode-se dizer que a visão é o mais importante dos cinco sentidos, não só para a realização de um trabalho, como para a vida diária. Alguns estudiosos afirmam que o sentido da visão controla 90% de todas as atividades de um indivíduo. A manutenção da atividade visual e prevenção de doenças e acidentes relacionados à visão é uma das preocupações da ergonomia e de outras disciplinas.


O planejamento da iluminação nos ambientes de trabalho não deve se restringir apenas a intensidade e distribuição do fluxo luminoso, mas também levar em conta a utilização de cores a fim de aumentar a satisfação no trabalho, melhorar a produtividade e reduzir a fadiga e os acidentes.


A unidade de medida do fluxo luminoso é o lúmen (lm). Um lúmen corresponde ao fluxo luminoso no interior de um ângulo sólido igual a um esterorradiano, por uma fonte puntiforme de intensidade invariável e igual a 1 candela (cd), de mesmo valor em todas as direções. Já iluminamento ou iluminância é medido em lux (lx). Um lux corresponde ao iluminamento de uma superfície plana, de área igual a 1 metro quadrado, que recebe, na direção perpendicular, um fluxo luminoso igual a 1 lúmen, uniformemente distribuído. Luminância (cd/m2), em uma direção determinada, de uma fonte com área emissiva igual a um metro quadrado , cuja intensidade luminosa, na mesma direção é igual a 1 candela.

A quantidade de luz necessária em um espaço de trabalho depende do tipo de atividade que será realizada no local, em outras palavras, depende do grau de precisão do trabalho a ser realizado. Por exemplo, em corredores pode-se utilizar 100 lux, em escritório 1000 lux, em salas de aula 250 lux, etc.


A distribuição da luz no espaço deve ser tal que as diferenças excessivas de luz e de sombra sejam evitadas, pois podem perturbar a percepção adequada. Também o contraste é fundamental para a diferenciação dos objetos no espaço. É essencial (e econômico) utilizar, sempre que possível, a luz natural, desde que não causem ofuscamento excessivo. A introdução de uma fonte luminosa muito intensa dentro do campo visual deve ser evitada, o que pode produzir no ocupante desconforto e fadiga. Em situações em que se trabalha com fortes intensidades de luz ( como nas soldagens ) é recomendado EPIs (NR-6).


Quanto as cores, Guimarães ET AL , recomendam cores claras nas grandes superfícies e brilhantes nas menores. Isso é importante para garantir boa acuidade visual. Peças grandes não devem ser pintadas com cores puras ou em tinta fluorescente para evitar sobrecarga na retina. As cores preta e amarela são muito usadas, pois são contrastes extremos em cromaticidade e luminância; o princípio oposto é o da camuflagem.

Medidas para evitar fadiga visual também devem ser implementadas.


No ritmo de vida atual, as funções visuais são levadas ao limite de sua capacidade, seja nos trabalhos industriais, comerciais, nas escolas, no transito intenso e até em casa, ao assistir a televisão, por exemplo. Nesse contexto a fadiga visual acontece quando se expõe ao estresse a utilização das funções visuais. Os principais sintomas da fadiga visual são:
  • Queimação e ardência, acompanhada de lacrimação e avermelhando os olhos;
  • Visão dupla;
  • Dores de cabeça;
  • Redução da percepção visual (acuidade, sensibilidade aos contrastes e velocidade de percepção).
VENTILAÇÃO E TEMPERATURA


Alguns postos de trabalho apresentam temperaturas elevadas, como na caldeiraria, na siderurgia, na cerâmica, nos quais o trabalhador precisa se proteger das elevadas temperaturas. Há também situações nas quais os postos de trabalho apresentam baixas temperaturas, como no caso de câmaras frigoríficas, nas quais é necessária proteção térmica. Em ambos os casos, a insalubridade constitui características principal desses ambientes de trabalho.

A temperatura normal do corpo humano é de aproximadamente 37°C. Para mantê-la nesse nível o corpo humano possui uma série de mecanismos homeostáticos de regulagem, dentre outras funções, da temperatura. O tempo de exposição ao calor ou ao frio devem ser controlados a fim de evitar hiper ou hipotermia.

As temperaturas dos elementos que cercam o indivíduo, a velocidade do ar, e a umidade afetam o conforto térmico e devem ser considerados simultaneamente, pois são fundamentais para uma sensação térmica confortável.

Nos climas temperados, em ambientes interiores, sob condições de ar moderadamente quente (em torno de 18°C) e calmo (25m/s) e umidade do ar compreendida entre 40% e 60%, uma pessoa que esteja executando uma atividade sedentária dissipará o excesso de calor sem mais dificuldades. A sensação térmica varia fortemente em função do indivíduo e das roupas.


O tipo de vestimenta interfere nos parâmetros de conforto, pois há diferenças quanto ao isolamento térmico. Isolamentos eficientes reduzem a perda de calor e, consequentemente a sensação de frio. Uma vez que a temperatura de conforto seja algo muito relativo deve-se deixar a cargo das próprias pessoas o controle da ambiência térmica. Ajustar a temperatura ao esforço físico, evitar umidades extremas, evitar ambientes muito quentes ou muito frios são ações que minimizam a insalubridade.


Quanto a ventilação, esta deve ser suficiente para evitar vapores, fumaça e odores prejudiciais a saúde, conforme normas especificas, as NRs e as NBRs.

RUIDOS


Ruído é som desagradável. Ele é desagradável porque não é percebido pela pessoa-alvo como concordante com seus interesses momentâneos.


O ruído, quando inadequado, relaciona-se a lesões no aparelho auditivo, à fadiga auditiva e efeitos psicofisiológicos negativos associados ao estresse psíquico (perturbam o sono, atenção, memória; irritabilidade, labilidade emocional, etc.) e neurovegetativos como taquicardia, e aumento da tensão muscular.

Considera-se ruído externo uma fonte que esta fora do local de trabalho, já o ruído interno é produzido dentro do local de trabalho.

As ondas sonoras são transmitidas por meio de vibrações no ar que são captadas pelo aparelho auditivo e decodificadas e interpretadas pelo sistema nervoso.

Todo movimento mecânico repentino provoca variações na pressão do ar que se propagam em ondas que, ao atingir o ouvido, provocam a sensação sonora. De maneira geral, os sons possuem três variáveis principais e importantes para a ergonomia: a altura, a intensidade e a duração.

Altura do som: a altura (ou tonalidade) do som diz respeito à sua frequência e é medida em Hertz. Quanto mais alto o som, maior sua frequência, ou seja, mais agudo. Quando mais baixo, menor sua frequência, ou seja, o som se torna mais grave. O ouvido humano pode perceber sons na frequência de aproximadamente 20 a 20 mil Hz. A maioria dos sons emitidos pela fala humana estão situados entre 300 e 700 Hz. A maioria dos sons é composta por um conjunto de sons de várias frequências misturadas, a predominância da faixa de frequências desta mistura dá a percepção da altura do som.

Intensidade do som: a intensidade do som é representada pela energia ou pressão de suas oscilações. A unidade de medida desta pressão é o micropascal (μPa). O som mais fraco que o ouvido humano pode escutar é de aproximadamente 20 μPa. Como o ouvido humano é capaz de ouvir uma enorme gama de intensidade de sons (desde um leve respirar até o jato de uma turbina) na prática, utiliza-se uma outra unidade de medida, em escala logarítmica chamada decibel. Cada vez que a pressão da onda sonora em micropascal é multiplicada por 10, são acrescentados 20 dB à escala de medição de intensidade em decibéis. A relação entre pressão sonora em micropascal e em decibéis é apresentada abaixo:


 SPLdB = 20 log ( Px / P0 )

Onde: SPLdB = nível de pressão sonora em decibéis; Px= pressão sonora em micropascal; P0= pressão sonora mais baixa que o ouvido humano pode detectar (20 μPa).


 O ouvido humano é capaz de detectar sons que vão de 20 a 120 dB. O aparelho utilizado para medir a intensidade sonora é chamando de decibelímetro. Os sons normalmente gerados no dia-a-dia das pessoas, no lar, nas lojas, ruas, escritórios e fábricas encontram-se na faixa de 50 a 80 decibéis. Se a intensidade do som for superior a 120 dB a sensação é de desconforto e dor.



Duração do som: a duração do som diz respeito ao tempo durante o qual ele ocorre e é, geralmente, medida em segundos. Sons que apresentam curta duração, menos que 0,1 segundos, podem ser difíceis de identificar, se comparados a sons com maior tempo de duração, acima de 1,0 segundo.


O nível d ruído máximo permitido legalmente em ambientes laborais é de 85dB, acima desse valor o ambiente é considerado insalubre. A NR15 (atividades e operações insalubres) estabelece limites de tolerância para ruído contínuo ou intermitente.


A ergonomia procura manter esses índices próximos a 80dB, o que permite um exposição prolongada. Ruídos acima de 80dB prejudicam a comunicação, alteram o nível de atenção e forçam as pessoas a falarem mais alto.

Grandjean faz observações importantes sobre o ruído:
  • Um ruído inesperado e intermitente perturba mais que um ruído contínuo; 
  • Ruídos descontínuos e desconhecidos incomodam mais do que os estímulos acústicos conhecidos e contínuos; 
  • Atividades que ainda estão em fase de aprendizado são mais perturbadas pelo ruído do que aquelas que já são rotineiras; 
  • Fontes de ruído de alta frequência perturbam mais do que as de baixa frequência.
A presença de ruídos no ambiente de trabalho pode causar danos ao aparelho auditivo, levando até a surdez. Em ambientes fechados a situação se agrava devido à reverberação.


A exposição a ruídos excessivos provoca os seguintes efeitos:
  •  Audiológicos: perdas auditivas que podem ser temporárias ou permanentes, e que depende da intensidade e tempo de exposição;
  • Fisiológicos: mudanças fisiológicas com consequente queda no rendimento laboral;
  • Alterações comportamentais: devido principalmente ao estresse.  
A fim de prevenir os efeitos deletérios de uma exposição excessiva ao ruído pode-se executar as seguintes ações:
  • Enclausurar máquinas e equipamentos;
  • Substituir materiais duros por outros macios e emborrachados;
  • Utilizar materiais absorvedores de impactos e sons;
  • Utilização de EPIs , protetor auricular e etc.
  • Procurar eliminar o ruído na fonte.


VIBRAÇÃO


Vibrações são ondas que se propagam com movimentos de compressão e dilatação sucessivos de propagação, geralmente apresenta riscos e prejuízos no ambiente ocupacional. Pode, assim como os demais fatores, influenciar o conforto, eficiência e saúde no trabalho. Os efeitos da vibração no organismo depende do tempo de exposição, da intensidade, da repetição.


Um corpo esta em vibração quando esta em movimento oscilatório em torno de um posição de equilíbrio. Vibrações em contato com o corpo humano estão em estreita relação com o sistema biomecânico (ossos, articulações, músculos, etc.).

Existem dois tipos de vibrações presentes na maioria dos postos de trabalho:
  •  Vibrações corpo-total: transmitidas ao conjunto do corpo do trabalhador pelos veículos de transporte (caminhões, tratores, pontes rolantes, etc.);
  •  Vibrações manubraquiais: mais localizadas, transmitidas em particular a mão e ao braço em contato com as máquinas vibrantes (britadeira, lixadeira, furadora, martelete, etc.).  
As principais consequências da vibração sobre o corpo humano são:
  •  Hiperventilação pulmonar;
  •  Problemas visuais: diminuição da acuidade visual, e efeito desfavorável na realização de determinadas tarefas;
  • Dor no corpo e no abdômen, reações musculares, ranger de dentes;
  • Tensão muscular, dor de cabeça, oculares, de garganta, e, possivelmente, deslocamento de estruturas internas;
  • Lesões neurológicas;
  • Diminuição da destreza manual, da força muscular e da sensibilidade térmica;
  • Alterações auditivas;
  • Hemorróidas;
Diante disso, deve-se minimizar as consequências das vibrações e assim possibilitar maior conforto ao trabalhador. Para isso, deve-se eliminar as fontes de vibrações, isolar e dar proteção ao trabalhador por meio do uso de equipamentos de proteção (botas e luvas) e concessão de pausas. Quando a vibração for continua deve-se programar pausas de 10 minutos para cada 50 minutos de trabalho.

MÚSICA E COR

A música e a cor atuam na esfera subjetiva contribuindo para a promoção de conforto e bem estar.


Em seres humanos, a música aumenta o entusiasmo e o relaxamento, reduzindo, assim a fadiga e o nervosismo deixando o indivíduo em bom estado de espírito. Também contribui ao mascarar ruídos do ambiente de trabalho.

A música nos ambientes de trabalho deve ser constante, discreta, e pouco perceptível. A música, por agir no inconsciente, cria um clima acústico agradável, oferecendo o menor efeito de distração. Entretanto, deve-se suprimir a música quando a atividade laboral exigir grandes esforços de concentração.


Quanto às cores, suas principais funções no ambiente de trabalho são:
  • Princípio de ordenação; auxilio de orientação;
  • Símbolos de segurança;
  • Contrastes de cores para facilitar o trabalho;
  • Efeitos psicológicos.

Referências

COUTO, H. de A A ergonomia aplicada ao trabalho: o manual técnico da máquina humana. Belo Horizonte: Ergo, 1996.

GRANDJEAN, E. Manual de ergonomia: adaptando o trabalho ao homem. Porto Alegre: Artes Médicas, 2005.

GUIMARÃES, L. B. de M. (Coord.) Ergonomia de processo. Porto Alegre: UFRGS, 2000.

RODRIGUES, M. V. C. Qualidade de vida no trabalho. Petrópolis, Vozes.

SENGE, P. M. A quinta disciplina: Arte e pratica da organização que aprende. BestSeller 25°Ed. 2009

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE SEGURANÇA. Normas regulamentadoras. http://www.sobes.org.br/nrs.htm

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ERGONOMIA http://www.abergo.org.br/

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MEDICINA DO TRABALHO: http://www.anamt.org.br/

WACHOWICZ, M. Segurança, saúde e ergonomia. IBPEX Curitiba, 2007.
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